O Salmo 42-7 costuma ser lembrado pelos pregadores para nos alertar em relação à dolorosa realidade de que o abismo chama o abismo. Num sentido bem óbvio, o significado imediato nos remeteria à advertência de que um pecado é a porta de entrada para um outro pecado, que traz em si a possibilidade de superar em gravidade aquele que o antecedeu. Contudo, ao presente autor sempre apeteceu uma interpretação alternativa, de caráter simétrico e reflexivo, para esse belo versículo. Ações geram amiúde ações opostas em sentido oposto. Mas eis que dispenso de bom grado a leitura newtoniana de que a magnitude das forças contrapostas é necessariamente idêntica.
Visto nesta ótica, ficamos de frente com realidade ineludível de que um excesso de uma parte é com enorme frequência um fator crucial para a produção de um excesso que se lhe opõe diretamente.
No âmbito da política, a realidade nua e crua é que o extremismo de um lado é inapelavelmente respondido com extremismo pelo lado oposto. Atrevo-me a dizer que essa regra raramente comporta exceções, em razão de estar conforme à natureza humana, em geral, e, muito especialmente, às propensões tribalistas que nela se manifestam com aterradora frequência e a que fiz alusão no artigo precedente.
Não é a minha pretensão sugerir que o processo de radicalização e polarização então deslanchado siga invariavelmente um único roteiro ou que seja passível de explicação nos termos exclusivos de um só mecanismo. Creio, não obstante, que certas ocorrências penosas na minha vida pessoal podem fornecer insights valiosos sobre a natureza dos processos que estão em jogo.
Recordo-me de forma vívida de um desconforto considerável depois que me tornei professor universitário numa universidade pública, a Universidade Federal de Sergipe. Era patente a forma pela qual as concepções de esquerda sobre as questões mais variadas simplesmente impregnavam o ar que se respirava com foros de verdades incontestes e óbvias. A julgar pelo que eu ouvia diariamente, era evidente, e ninguém ousaria dizer o contrário, que a crença religiosa é uma rematada bobagem, que o aborto é indiscutivelmente correto, que a Igreja Católica é uma instituição nefasta e que o PSDB, e nem poderia ser diferente, é um partido fascista de extrema-direita. À época, abri uma conta no Facebook e eis algumas outras “obviedades crassas” com que me deparei, tipicamente da lavra de colegas acadêmicos de outras universidades ou de alunos: que o então Papa Bento XVI fora um “canalha” ao condenar a prática de aborto num rumoroso caso envolvendo uma menor de idade no nordeste do país; que José Serra falsificara o seu currículo, que Geraldo Alckmin era o Führerpaulista, que Israel oprime os palestinos com inaudita brutalidade. Do teclado de um aluno esquerdista, no começo de uma solitária madrugada, brotaram no Facebook palavras que muito simplesmente pediam o extermínio da burguesia.
O leitor terá entendido a minha perplexidade, creio. Afinal, nenhuma dessas assertivas se me afigurava óbvia, algumas ao menos seriam bem merecedoras de ser o objeto de um debate sereno e outras tantas eram flagrantemente falsas ou odientas.
Num episódio que nunca hei de olvidar, senti especial repulsa na casa de um colega professor, cujo nome não declinarei aqui por razões que prontamente se mostrarão bastante claras. Numa festinha de comes e bebes, lá pelas tantas, cuidou-se de oferecer canapés aos convivas. Tudo muito natural, é claro. Mas, para o meu absoluto espanto, o meu colega se pôs a servir canapés feitos com hóstias. Devo dizer, para não fazer o caso se afigurar ainda mais repelente, que as hóstias não eram consagradas. Sou católico. Um católico deveras relapso. Dir-se-ia até um católico de meia-tijela, fajuto. Contudo, o comportamento em tela me pareceu sumamente desrespeitoso, e quero crer que o leitor terá a mesma reação que eu, independentemente de ter alguma fé ou nenhuma. Aquilo simplesmente não era decente.
Já de regresso ao Recife, vi-me quase que inteiramente cercado por posições de esquerda, todas evidentemente corretas, e, claro, nenhuma pessoa de boa índole contestaria que o fossem. Ou ao menos era sob tal ótica que costumavam ser apresentadas.
Numa ordem temporal concomitante à dessas revelações diuturnas e existenciais, fui tomando conhecimento de uma literatura contrária à esquerda, uma literatura nos termos da qual nenhuma das alegadas verdades incontestáveis se mostrava realmente incontestável. Na verdade, algumas delas ruíam facilmente quando submetidas a um exame racional.
Um belo dia, não aguentei mais. Resolvi que, no mínimo dos mínimos, não me manteria calado. Passei a expressar numa série de postagens de Facebook, às quais dei o nome de “Iconoclastias”, opiniões que contestavam frontalmente o senso-comum esquerdista vigente. Passara vários meses afastado do trabalho doente e deprimido, e aquelas manifestações destemidas, em que não atentava em absoluto à impopularidade pessoal que delas pudesse resultar, foram então uma forma de me sentir mais vivo.
Alunos conservadores que nunca conhecera pessoalmente souberam de alguma forma que eu granjeara uma certa fama de ser o “professor direitista” da Universidade Federal de Pernambuco. Findava o mês de abril de 2016 quando me procuraram e tivemos alguns contatos via Skype. Combinou-se para o mês maio a realização de um colóquio declaradamente crítico ao marxismo, seja em sua forma marxiana, marxista-leninista, frankfurtiana, gramscista, ou como queiram. Criou-se um evento no Facebook para divulgar o colóquio e convidar possíveis interessados. Naquela rede, várias pessoas expressaram o temor de que tal heresia não seria admitida pela esquerda. De minha parte, preferi acreditar no melhor.
Não tenho aqui o espaço, e ao leitor talvez falte o interesse ou a paciência. Por isso, vou me contentar com uma exposição extremamente sumária do ocorrido. Na condição de professor que encampou o evento e reservou a sala, fiz uma breve introdução. Logo passaram a tomar a palavra sucessivamente os três alunos que à época me procuraram. O segundo aluno a apresentar-se teve a sua palestra interrompida. Uma professora de antropologia fora informada do evento, exigiu saber quem o convocara, declarou-o ilegítimo de fato e de direito e disse que não admitiria, nas suas palavras, “calúnias contra o feminismo”. Com efeito, um dos alunos que se apresentaram criticou o que lhe pareceram certos excessos de feministas bem conhecidas, como o são Simone de Beauvoir e Shulamith Firestone. Ainda assim, tanto quanto eu saiba o feminismo não é nem pessoa física nem jurídica. Exclui-se assim de pronto a possibilidade de que possa ser tido na conta de polo passivo de um dos crimes contra a honra. É simplesmente uma linha de pensamento tão passível de encômios ou de críticas quanto qualquer outra, respeitados o direito à livre expressão e o pluralismo de opiniões, e logo que se vê que a tentativa de nos calar foi pura e simplesmente censória e autoritária.
Fiz quanto pude para contemporizar. Respeitosamente sugeri à invasora que se sentasse numa das cadeiras ainda vagas e guardasse para o fim quaisquer indagações ou críticas que porventura desejasse fazer. Foi inútil. Do nada, ela disse que o que eu realmente queria era bater nela (!!!). A isso fui incapaz de dar qualquer resposta, tal o meu nível de perplexidade.
Cabe notar que a aludida professora não estava só. Acompanhavam-na um outro professor e vários alunos. Talvez uns dez. Ou quinze. Não sei. Depois de uma boa meia-hora, foram embora. Mas não seriam genuínos militantes e radicais se o fizessem em silêncio. Foram-se aos berros: “Fascistas, golpistas não passarão!”. Neste ponto, vale lembrar que o processo de impeachment de Dilma Rousseff fora aceito algumas semanas antes na Câmara dos Deputados.
O evento foi retomado e prosseguiu num clima extremamente tenso. Alunos de esquerda haviam formado uma “turma do fundão” desde o princípio do evento e, findas as apresentações, seguiu-se um debate acalorado de parte a parte. Eu mesmo me excedi em alguns momentos. Afinal, o abismo chama o abismo.
Seja como for, não havia sido cometido, na tarde de 3 de maio de 2016, qualquer crime na sala 26 do glorioso Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco. Um evento regularmente agendado por um professor da instituição foi objeto de agressões verbais de radicais para quem a liberdade de expressão é letra morta se alguma expressão destoar dos cânones da suposta legitimidade esquerdista.
Como este artigo é só o primeiro de uma série, falta-me aqui o espaço para dar cabal expressão à maneira pela qual o abismo alheio, e aqui é forçoso ser honesto e não tergiversar, veio a produzir um certo abismo também em mim, vale dizer, certos excessos que creio ter começado a contextualizar nos parágrafos precedentes, mas pelos quais, de toda sorte, me penitencio. Mas tudo há de vir no tempo devido.
Não sou ególatra nem julgo a minha biografia especialmente merecedora de maiores atenções. Se aqui trato destas ocorrências, é porque creio que essa pode ser a minha primeira explicação sobre como a polarização costuma ocorrer quando os moderados, ou ao menos os que se apresentam como tais, se calam e se recusam a protestar contra os radicais do seu próprio campo e a estender a mão para alguém que seja injustamente perseguido no campo oposto.
O leitor talvez esteja a se perguntar: “Mas por que isso teve tanta repercussão? Por que não morreu por aí? Por que o Prof. Rodrigo Jungmann fez o caso chegar à imprensa?”. E a resposta para essa indagação cabe num vocábulo de duas sílabas.
Medo.
Ora, medo do quê?
Bem, no dia seguinte, uma quarta-feira, dia em que fiquei em casa e não lecionei, fui informado de que uma comitiva de alunos inconformados se dirigiu à secretaria do Departamento de Filosofia para prestar queixas de minhas heresias e, presumivelmente, cobrar algum tipo de providência.
Sentindo-me acuado, escrevi um e-mail circular para todos os colegas do departamento deixando claro que não fora cometida nenhuma irregularidade, e certamente nenhum crime, e dando, em suma, a minha versão do ocorrido.
Um colega que por óbvio não nomearei – e a quem não sei se um dia terei forças para perdoar – respondeu num tom francamente debochado em que se lia nas entrelinhas que a versão acusatória fora por ele prontamente encampada sem que sentisse qualquer necessidade de me ouvir.
Horas depois, a narrativa havia chegado à imprensa.
É fora de dúvida que o abismo chama o abismo.
